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Sem visto é mais fácil

Publicado: Quarta, 01 de Julho de 2015, 10h58 | Última atualização em Quarta, 01 de Julho de 2015, 10h58

Artigo publicado nesta quarta-feira (1), no jornal Folha de S.Paulo

O turista estrangeiro tem o mundo a sua disposição. O que faria um chinês escolher o Brasil em vez da Tailândia? Um alemão cruzar o atlântico em vez de ir para a Croácia ou França? Um americano optar por nossas praias em vez de ficar no Caribe, no meio do caminho? A escolha do destino é pautada por diversos fatores, alguns subjetivos e outros concretos. No lado da emoção estão questões como a imagem e o desejo despertado construídos ao longo do tempo, do lado da razão temos itens como custo e a exigência de vistos.

A presença do Brasil no mercado global de viagens ainda é tímida se comparada com o seu potencial ou com outros países que, de fato, encaram o turismo como um vetor econômico. Figuramos apenas na 39ª colocação no ranking de países onde os estrangeiros mais gastam. Estamos atrás de países como o Vietnã, República Checa e Polônia. Enquanto o México arrecadou US$ 17 bilhões com turismo internacional, o Brasil faturou apenas US$ 6,9 bilhões.

Em compensação na lista de nações que mais gastam mundo afora, estamos na décima colocação. O resultado é um déficit histórico e crescente na balança comercial do turismo que, em 2014, chegou a US$ 18,7 bilhões. O prejuízo é maior que a soma de toda a arrecadação do Brasil com a exportação de aviões, carros, celulose e carne. Nos cinco primeiros meses deste ano, já acumulamos US$ 5,79 bi negativos na balança. Enquanto o Brasil não desatar nós que dificultam o crescimento do turismo, não mudaremos o quadro e continuaremos no vermelho na conta-viagem.

A disputa cada vez mais acirrada no mercado global pelo turista impõe aos destinos a necessidade de criar facilidades e elaborar estratégias ainda mais agressivas na captação desse público. Do lado da emoção, o Brasil vai reformular toda a estratégia de promoção internacional. Encomendei ao presidente da Embratur, Vinicius Lummertz, uma proposta de reforma total da autarquia. A ideia é transformá-la em agência para garantir mais agilidade, transparência e facilitar parcerias com a iniciativa privada na divulgação dos nossos destinos.

Do lado da razão, estamos atacando itens como o visto, a infraestrutura e a conectividade. Não podemos, por exemplo, continuar exigindo vistos para mercados emissores estratégicos como os Estados Unidos. Temos de, ao contrário, estender um tapete vermelho para o visitante. Cativa-lo, fazer de tudo para ele viver experiências inesquecíveis, falar bem do nosso Brasil, difundir belas imagens nas redes socais e querer voltar.

De acordo com estudo do Fórum Econômico Mundial, recentemente divulgado, o Brasil ocupa a 91ª colocação num ranking de 141 países na dimensão "Abertura internacional". No subitem que avalia o percentual da população mundial que necessita de visto para entrar no país, caímos para 102ª colocação. O dado é revelador e crítico num ano pré-olímpico, quando aumenta a exposição e o desejo do estrangeiro de visitar o país. 

Durante a Copa do Mundo de 2014, o Brasil fez uma experiência piloto e flexibilizou os vistos para os viajantes com ingressos para o mundial. Como resultado, cerca de 100 mil vistos especiais foram emitidos e 1 milhão de estrangeiros visitaram o país. Em junho e julho registramos entrada recorde de dólares pelo turismo. Os estrangeiros deixaram US$ 1,58 bilhão, um incremento de quase 60% em relação ao mesmo período de 2013.

Atualmente, mesmo com exigência de visto, os Estados Unidos é o 2º maior mercado emissor para o Brasil (592,8 mil em 2013), o que mais gasta (US$ 1.427) e mais permanece no país a lazer (20,6 dias).

Os ministérios do Turismo e das Relações Exteriores têm trabalhado em parceria para encontrar soluções que permitam ao Brasil eximir de vistos mercados prioritários. Tenho dedicado especial atenção ao tema. Em, pouco mais de dois meses à frente do Ministério do Turismo, já tratei do assunto com o presidente da Comissão de Turismo da Câmara dos Deputados, Alex Manente, outros parlamentares, empresários do setor e com o ministro Mauro Vieira. As equipes técnicas das duas pastas estão em sintonia.

O tempo corre contra nós. Cada dia que permanecemos com as mesmas estratégias e amarras para o desenvolvimento do potencial econômico do turismo no Brasil, é um dia que perdemos na luta por reverter, igualar ou, ao menos, diminuir o déficit da nossa balança comercial. Se continuarmos a olhar para o turismo como uma área supérflua da economia, os empregos que poderíamos gerar ficarão na ficção. Einstein costumava afirmar que “insanidade é continuar fazendo sempre as mesmas coisas e esperar resultados diferentes”. Se queremos de fato transformar o setor de viagens num vetor do desenvolvimento econômico, entre outras coisas, sem visto é mais fácil.

Henrique Eduardo Alves, ministro do Turismo

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