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Por que não ficam em casa?

Publicado: Quarta, 27 de Maio de 2015, 11h23 | Última atualização em Quarta, 27 de Maio de 2015, 11h23

22/10/2013

Existem na natureza três leis implacáveis, cuja tentativa de violação sempre causará problemas: a Lei da Gravidade, segundo a qual tudo o que sobe desce; a Segunda Lei da Termodinâmica, que explica por que o tempo não pode parar nem andar para trás; e a Lei da Oferta e da Demanda, que postula que, num mercado perfeito, os preços são formados pela relação entre a disponibilidade de um produto e a de compradores.

À medida que a Segunda Lei da Termodinâmica nos aproxima inexoravelmente da Copa do Mundo, crescem no Brasil as preocupações com o funcionamento da Lei da Oferta e da Demanda. Há meses a imprensa vem noticiando que o valor das diárias dos hotéis para o Mundial está alto demais. E, na última semana, denunciou que as companhias aéreas também estão tentando violar esse princípio da economia: um bilhete Rio-São Paulo para o dia da abertura do torneio chegou a custar R$ 2.393, dez vezes mais que o valor normal. Tais tentativas já nascem condenadas ao fracasso.

Tomemos o caso mais recente, o do surreal aumento do bilhete aéreo. Questionadas pela imprensa, as companhias disseram tratar-se de uma questão de “oferta e demanda”, já que é natural que a demanda cresça durante a Copa e que, mantida constante a oferta, o preço vá subir. Ora, estamos a oito meses do jogo de abertura. Não existe ainda nenhum ingresso vendido, nem as chaves foram definidas. Logo, as empresas não têm como estimar o tamanho da demanda. O chute para cima nos preços soa mais como um forte ataque especulativo – num momento em que as aéreas tentam negociar com o governo federal um pacote de ajuda para sair da situação financeira delicada em que se encontram.

O caso do setor hoteleiro é de certa forma mais grave, por envolver monopólio: 60% das diárias dos hotéis do país foram bloqueadas pela Match, empresa parceira da Fifa, que estabeleceu unilateralmente o valor das diárias. Os hoteleiros reclamam que não podem fazer nada a respeito, já que a Fifa é “dona” do Mundial. Mas a Match não obrigou ninguém a aceitar seus termos.

A implacabilidade da Lei da Oferta e da Demanda, em ambos os casos, punirá a afoiteza. Consumidores cariocas que se virem diante de uma tarifa de ponte aérea equivalente ao preço de uma passagem para a Europa poderão simplesmente não ir a São Paulo, ou preferirão assistir ao jogo de abertura pela TV em Paris. Parece ser esse o recado que o empresariado está passando ao público: se não querem pagar meu preço, por que não ficam em casa? 
O problema é que as pessoas ficarão. Existe até um nome em inglês para isso: “crowding out”. É um fenômeno comum em grandes eventos, aos quais muita gente prefere não ir a ser extorquida nos preços. Na África do Sul, em 2010, ele fez com que o número de turistas para a Copa fosse menor que os 300 mil estrangeiros estimados.

Como ministro do Turismo, preocupo-me em que o “crowding out” da Copa no Brasil seja o menor possível. Afinal, todos perdem com os preços abusivos: o consumidor, que deixa de ir ao espetáculo; o governo, que pode ver um evento no qual o país investiu tanto não dar o retorno esperado para o país; e o empresário, que fatalmente sairá no prejuízo. Considere, por exemplo, que hoje a taxa média de ocupação na hotelaria brasileira é de 65% e que há 25 mil quartos de hotel novos sendo construídos para a Copa. Em várias cidades poderá ocorrer uma inflação ao contrário, com hotéis vazios e diárias a preços aviltados.

O governo evidentemente não vai intervir no setor privado, nem fazer tabelamento de preços. Mas tampouco tolerará abusos ou faltará em seu papel de proteger o consumidor. O Ministério do Turismo, por exemplo, criou em seu site um registro de meios de hospedagem alternativos (hospitalidade.turismo.gov.br) para restabelecer o princípio da concorrência e ajudar aos que se sentirem sem escolha diante das tarifas impostas. Também defendemos soluções estruturantes para o setor aéreo, como o fim do limite à participação do capital estrangeiro nas empresas, para que estas possam se reestruturar financeiramente e aumentar sua oferta.

Mas os empresários precisam tomar juízo e jogar dentro das regras de mercado. Atitudes gananciosas e irresponsáveis podem causar grande dano à Copa e à imagem do Brasil, que já é tido e havido como um destino caro demais. Mas o dano maior será aos bolsos deles próprios. E tenho certeza de que eles não rasgam dinheiro.

Gastão Dias Vieira, 67, é ministro do Turismo

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